Viver numa aldeia ou localidade pequena tem alguns dissabores. Um deles é ver as coisas a não correr como esperado, quando pouco muda, ou quem se conhece partir para novas aventuras. No final, o que sobra?
The Last People mergulha-nos num vilarejo adormecido, onde o tempo parece suspenso e cada gesto ganha peso. Num preto e branco elegante, o filme capta com precisão o ambiente fechado e familiar de uma terra pequena — ao mesmo tempo sufocante e estranhamente acolhedora. As rotinas quase imóveis das personagens contrastam com explosões de energia que iluminam o ecrã: carros a fazer “donuts” num descampado, sapatilhas fluorescentes a dançar tecno ao entardecer, noites no bar de sempre ao som de eurotrance dos anos 90. Um filme que vive da tensão entre a vontade de partir e a inércia de ficar — e que nos deixa a pensar no que acontece quando uma presença que parecia garantida desaparece, e o equilíbrio silencioso do mundo vacila. (Cláudia Marques)