Camille Anker leva-nos num road movie onde nos sentamos, tal como a protagonista, no lugar do passageiro. Mas em vez de olhar pela janela e apreciar a viagem, ela apenas deseja chegar ao destino. O condutor faz por estender o tempo dentro da viatura.
Este road movie conduz-nos pelas angústias das relações abusivas para as quais nem sempre se encontra uma saída, um destino. Quais passageiros seguimos viagem por estradas intermináveis que não parecem levar a lado nenhum. Ao volante segue um homem cuja ligação com a protagonista, sentada no lugar do morto, não é inteiramente clara. Aquela relação vai-se revelando aos poucos, ao mesmo tempo que se instala um mal-estar algo impreciso onde a cada quilómetro percorrido se aprofunda a sensação de aprisionamento. A estrada torna-se um reflexo das emoções em conflito, um espaço onde o medo e a incerteza acompanham a monotonia do movimento contínuo, e onde a cada curva se esconde uma ameaça silenciosa,
Quem são aquelas pessoas? Será que querem estar ali? Será que queremos estar ali, quais passageiros à boleia de uma relação cheia de tensões indizíveis? Afinal, de que modo podemos escapar de uma viagem da qual não se tem o mapa, nem se sabe ao certo se existe um ponto de chegada? (Margarida Moz)