Um aeroporto não é um sítio fácil de navegar quando o objectivo não é apenas entrar num avião. Há sistemas de segurança postos em prática para ter a certeza que tudo correr tranquilamente. Ele observa, ela entra no jogo. Entretanto, um grupo de activistas prossegue com o plano. A Lua é a testemunha.
Um jogo de olhares, um plano em movimento, uma dança entre controlo e caos.
Num cenário onde a vigilância é total e os corpos se movem sob o olhar constante das câmaras, um homem segue silenciosamente os passos de uma mulher através dos ecrãs de segurança. Mas ela sabe — sempre soube — que está a ser observada. E joga com isso. As câmaras de vigilância, tão ubíquas como as partículas do ar, não se limitam a dar-nos o ponto de vista de Deus — aqui, Deus está nos mais inusitados detalhes. Também o espectador é arrastado para este jogo de observação e engano, vendo as suas expectativas continuamente desafiadas até ao desenlace final. Para dar corpo a este universo, os veteranos da animação Olga e Priit Pärn recorreram à técnica de motion capture, combinando actores reais, marionetas 3D, desenho digital e colagem. O resultado é uma estética híbrida e altamente expressiva: os corpos movem-se de forma peculiar, os seus rostos são máscaras vivas. Entre temas contemporâneos e muita imaginação surrealista, a atmosfera de Luna Rossa evoca De Chirico, a cultura popular italiana e os códigos do filme noir — o homem corresponde ao arquétipo do detective, a mulher ao da femme fatale, e neste jogo de caça, há algo do erotismo, do mistério e da decadência moral que constituem os códigos do género. Insólito e divertido até ao fim, Luna Rossa levanta questões sobre poder e resistência num mundo onde tudo pode ser visto — mas nem tudo pode ser evitado. (Cláudia Marques)