Sara Cwynar regressa ao IndieLisboa com outro filme que funciona com a lógica da Internet: as ideias interligam-se como hiperlinks e associações de termos e procuras, descendo como a Alice pelo buraco do coelho. De um carro da Mercedes Benz, passamos à Benzo(diazepina) e o mundo é a nossa ostra.
“Tudo começou porque eu não conseguia dormir.”
Desta privação de sono nasce o delirante “Baby Blue Benzo”, que parte do Mercedes-Benz 300 SLR azul claro – ícone lendário dos anos 1950 que une desempenho de competição e design elegante – para mergulhar na insónia, “esse estado que corresponde à necessidade de vigília e à recusa em ignorar o horror e a injustiça do mundo”. A exclusividade deste automóvel confere-lhe um estatuto quase mítico entre entusiastas e colecionadores, alimentando infinitamente o desejo e a ansiedade, enquanto a insónia “pode provocar distorção visual, alterações perceptuais e alucinações”. Também em 1955, ao mesmo tempo que era lançado o 300 SLR, surgiam as benzodiazepinas (Benzo), medicamentos consagrados no tratamento da ansiedade e das insónias. Coincidência ou não, a sequência de imagens do filme estabelece uma relação entre luxo, desejo e beleza – evocada na figura de Pamela Anderson – e propõe uma reflexão crítica sobre como a cultura visual molda a realidade e influencia a experiência humana. (Margarida Moz)