Num conto popular polaco, uma jovem possuída vive há séculos dentro da misteriosa Pedra de Kontrewers. Zuza Banasińska — que passou pelo IndieLisboa em 2024 — serve-se da fantasma para meter ao lume ficção e real. A sua avó, de 102 anos, confinada ao seu quarto e acenando à morte, encontra-se e encanta-se com a relíquia (ou com a assombração que a habita), numa clara confirmação de que a comunicação é muito mais do que palavras.
Em Kontrewers a lenda reza que uma jovem cometeu homicídio com uma pedra. A pedra desde aí nunca parou de crescer. Uma alma de uma rapariga numa pedra que continuou a crescer fala com uma senhora idosa de 102 anos. Pensando ter reencontrado a sua mãe, esta inicia um diálogo enervante que ocupa a duração do filme. Obliterando espaço e movendo-se livremente em planos das mais variadas origens, este diálogo cósmico, numa abordagem mixed media que surpreende de momento a momento na sua inesperada coesão, cria uma viagem entre raccords texturais sobre a violência própria desta história, e a história violenta destas texturas. Além da crueldade, o filme procura esta síntese numa grande ternura: o interesse delicado da cineasta por esta história e pela sua própria avó, a visão que a permite adentrar esta abordagem. (Vasco Muralha)