No segundo capítulo da trilogia Mommy, Dorothea Sing Zhang revela-nos o quotidiano solitário da sua mãe enquanto estrela da ópera chinesa. Os bastidores na sua maioria silenciosos e ecoantes são uma forma de reflectir a distância entre ambas.
Híbrido como o próprio título sugere, este filme transita entre gêneros, ao mesmo tempo que encena o deslocamento da realizadora ao abordar um sujeito que lhe deveria ser naturalmente próximo: a sua própria mãe. Sempre observacional, o olhar aproxima-se do que filma com uma curiosidade marcada por certa exterioridade. É como se tudo ainda estivesse por ser decifrado, da rotina de ensaios aos momentos de descanso e às mensagens de áudio de mãe para filha, mas também a Pequim opaca que surge no horizonte. O resultado é um laço de leve estranhamento entre a mãe e o espaço que habita. E se o silêncio da filha se impõe ao longo do filme, a própria obra pode ser lida como uma resposta. Mais do que isso, é uma carta de amor. (Pedro Gonçalves Ribeiro)