Os fetiches sexuais de homens brancos por mulheres asiáticas arrastam-se há séculos — com toda a promiscuidade macabra e racista que os mesmos transportam. Em 2021, porém, quando Robert Aaron Long assassinou oito mulheres em Atlanta como forma de suprimir o seu desejo, um novo estado de inferno foi alcançado. Através de várias cartas, Kiriko Mechanichus, realizadora neerlandesa-japonesa, dirige-se ao homicida. Porquê?
Mais do que um retrato de um crime real, How to Catch a Butterfly constrói-se como um ensaio pessoal e provocador sobre desejo, poder e representação. O filme parte de um crime para expor a persistência de fantasias ocidentais em torno da mulher asiática – frequentemente vista como submissa – e as dinâmicas que daí emergem.
Ao inscrever o seu próprio corpo e voz na narrativa, a realizadora recusa essa projeção e afirma uma subjetividade que resiste à homogeneização. Este gesto não é apenas performativo, mas crítico: confronta a tendência de diluir a singularidade numa imagem coletiva e consumível. O filme opera como um campo de pesquisa, convocando e reconfigurando códigos associados à pornografia enquanto sistema de produção de desejo. Ao expor essas categorias, revela-se como certos corpos são enquadrados, erotizados e hierarquizados segundo lógicas que excedem o plano individual.
Através de múltiplas camadas, emerge a interseção entre misoginia e racismo: o corpo feminino é simultaneamente objetificado e racializado, inscrito numa tipologia que limita a sua agência. Sem procurar explicá-lo, o filme desloca o foco para os regimes de representação que o tornam possível. O resultado é um objeto crítico que convoca o espectador a confrontar não só o que vê, mas as condições que moldam o seu próprio olhar. (Jéssica Pestana)