Mais do que uma carta de amor ao gato Henry, este filme é um sonolento exercício performativo de vida a dois — os gestos, os silêncios, os suspiros. A posição é sobretudo horizontal e o ritmo é de caracol, como se fosse sempre manhã. O que seria de nós sem eles?
Este filme é uma carta a Henry com quem a narradora partilha uma vida horizontal e uma imensa vontade de dormir. Henry é um gato. Henry é também a menina que escreve a carta e que encontra no felpudo a projecção de uma necessidade de conforto e de ternura: “Quero alguém para esfregar a cabeça contra o seu corpo, e dias inteiros passados debaixo dos cobertores.”
Dorme-se para não ser preciso existir: “Acho que dormir é das melhores coisas para pessoas infelizes”. O sono aqui não é preguiça, não é desleixo nem está ligado ao pecado; é intimidade e conforto; é um corpo que se enrosca como um gato para vencer a vulnerabilidade e o resto. Como um caracol que se retira quando o exterior é todo ele uma ameaça, também a narradora quer enroscar-se nos seus cobertores e recolher a si. Esta carta dirigida ao Henry parece afinal uma tentativa de superação do medo de sentir, sob a forma de declaração de amor (próprio) a um gato. (Margarida Moz)