Uma exploração obsessiva das três dimensões geométricas na esperança de alcançar uma quarta.
Depois de Vortex (2015-2017), Grid (2017-2021) e Canto (2021-2022), Alexandre Alagôa parece levar ao limite o seu cinema estruturalista com XYZ (2024-2026). Tal como os primeiros, o seu foco continua a ser a possibilidade da arquitetura definir e construir espaços – na senda daquilo que foram as experiências de Takashi Ito nos anos 1980. Mas se Vortex convertia o contexto doméstico num labirinto de ecrãs e espelhos, se Grid transformava o esqueleto de um edifício incompleto num vai-e-vem geométrico abissal, e Canto partia de um beco anónimo nas traseiras de um qualquer subúrbio para construir uma tômbola centrípeta de efeitos cubistas, XYZ impõe-se como súmula radical de uma década de trabalho. Radical no sentido de raiz. Este é um filme que trabalha os elementos essenciais do cinema: a bidimensionalidade da imagem associada ao efeito de profundidade através do tempo. E, como seria de esperar, no fim deste emaranhado de variáveis estonteantes redescobre-se a matriz analógica do cinema: o projetor e a película (num filme digital feito sem câmara). Perturbador paradoxo. (Ricardo Vieira Lisboa)