Pescadoras, cuidado! Que as vossas redes não capturem a sulfurosa Seranha. O afrodisíaco Venenus, injectado pela sua boca, despertará os vossos delírios adormecidos e transformar-vos-á para sempre.
Remotamente inspirado no conto A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen, ou melhor dito, um delírio em forma de fábula queer, de pulsão psicadélica e tonalidade vampiresca. Em Venenus, a Seranha recusa qualquer lógica de redenção romântica. Não há príncipe, nem desejo de assimilação ao mundo humano. O corpo, pelo contrário, afirma-se como território de transformação e contágio. O filme inicia-se numa aparente clave documental, insinuando um quotidiano piscatório que rapidamente se contamina. Pequenas dissonâncias sonoras e visuais infiltram-se, perturbando a ordem pacata e anunciando a deriva para o fantástico. É através das pescadoras, encarnadas pela dupla Venga Venga, que a narrativa se desloca definitivamente para o território da metamorfose desencadeada na sequência da captura da Seranha, interpretada por Tita Maravilha. Marie Fages consegue a proeza de construir uma mitologia própria em pouco mais de seis minutos, onde o erotismo, o grotesco e o lúdico se entrelaçam como forças de emancipação. A destacar a banda-sonora assinada por Menino da Mãe. (Susana Santos Rodrigues)