Uma ficção que imagina a ansiedade como literais explosões de luz, rompendo do corpo. A ansiedade desta noite, desta rapariga, está ligada à sua gravidez interrompida.
Numa noite quente, numa cidade anónima, uma mulher desperta. O som de um camião do lixo faz-se ouvir. Há também uma vizinha que grava dancinhas do TikTok às tantas da noite e um vizinho que decide mudar uma poltrona de lugar durante a madrugada. Tudo isto são elementos da “ecologia” sonora das grandes metrópoles e dos edifícios de má construção. E tudo isto seria corriqueiro, se a protagonista não estivesse, nessa noite, a fazer um aborto medicamentoso. Lucila Mariani filma esse evento – que não deixa de envolver uma certa dose de ansiedade – entre a banalidade e o surrealismo. A força do quotidiano e a “indiferença” do mundo impõe-se sobre aquele procedimento e, no entanto, a realidade parece insuflar as coisas de uma estranheza onírica: uma garrafa de água brilha misteriosamente, um cão lambe o fio de sangue que escorre pela perna, uma lesma atravessa, impávida, a tijoleira da sala. O vulgar torna-se extraordinário e o atípico costumeiro. Eis uma fábula sobre os enigmas do dia-a-dia. (Ricardo Vieira Lisboa)