O documentarista-mestre Jan visita HD, um escravo que finge estar embriagado. Playing Drunk é o novo filme de Jan Soldat — cineasta germânico que tem dedicado a sua filmografia à exploração da sexualidade, intimidade, fetiche; no limite, ao amor —, que assim regressa ao festival, depois de em 2015 ter tido alvo de um foco no IndieLisboa.
Um realizador propõe-se a filmar um escravo sexual (autodenominado) playing drunk. Brincar enquanto bêbado? Fingir que está bêbado? A troca não é mutuamente lasciva. O sujeito concorda mostrar-se sexualmente, não relatando as suas intenções. O realizador procura documentar. O realizador não procura também de partida interagir: a visão documentarista que procura não lhe permite e o trabalho pensante constante de construção dos enquadramentos (feita na hora e com pouco tempo de forma a acomodar o sujeito) não o permitem. Mas o que acontece quando o escravo decide rebelar-se contra o seu contrato? E o que acontece quando o olhar impassivo se vê frustrado ao ponto de ter de interagir? A relação mestre e escravo que já tradicionalmente se desconstruía na proposta inicial desaba progressivamente a partir desta figura central que domina, deturpa e ordena o filme (as suas regras, as suas condições e a sua forma). (Vasco Muralha)