A tríade de realizadores conheceu-se na L’École des Beaux-Arts de Montpellier e logo fundaram um grupo de pesquisa sobre a intrusão da realidade nos videojogos online. Depois de vários filmes que aprofundam essa relação chegam então a Normal Planet, onde um museu virtual recebe visitantes com avatares extravagantes.
Há cerca de uma década que este trio de realizadores interroga, entre investigação e cinema, as formas de experiência e de percepção do real nos mundos virtuais. Em Normal Planet, imaginaram um dia num museu virtual em ruínas, habitado por avatares curiosos a proferir comentários desarmantes e mordazes sobre as obras. Um sapo muito educado controla a entrada com um detector de metais; um dinossauro festivo confunde um orangotango a cavalo num quadro com a figura de Luís XIV; um grupo de adolescentes kawaii em modo TikTok anima o espaço com as suas discussões acesas. Entre salas invadidas por vegetação, obras canónicas e superfícies toscamente renderizadas, desenrola-se um fluxo de conversas tão absurdas quanto reveladoras: discute-se a nudez nos quadros, os modos contemporâneos de consumo da arte, a forma como os videojogos moldam o olhar sobre a paisagem, ou a impossibilidade de “desfazer” um gesto na arte como num ecrã. Ao mesmo tempo, os corpos virtuais falham, distorcem-se, atravessam superfícies, como se testassem os limites daquele mundo. Guiado pelo olhar de um peixe, Normal Planet propõe um ensaio lúdico sobre o museu enquanto espaço de projecção, onde o virtual e o real se contaminam e a experiência estética se reinventa à medida dos seus visitantes. (Cláudia Marques)