O absurdo entra pela porta da frente e a casa torna-se então protagonista. No seu primeiro filme, a artista multidisciplinar Matea Radic serve-se do desenho à mão, das fotografias de família, de uma ironia muito própria, para regressar à sangrenta Sarajevo que em criança abandonou. O que quer dizer apego?
Uma animação em estilo bruto, entre os traços confiantes da arte naïf e a indelicadeza mais propositada de uma certa escola de banda desenhada independente. Esta visão entre o doce e o grotesco é utilizada pela cineasta para explorar as contradições e medos da experiência de viver em ou visitar Sarajevo, a sua terra natal. Esta exploração é feita num estado de surrealismo associativo simbólico, mas nunca óbvio. Tomates aparecem e repetem, por exemplo. Caracóis, bombas, espaços mutantes são todos elementos centrais a este filme. Mas nenhum destes se apresenta como portador de significado único e opressivo. Num humor negro e desconcertante que é tão mais quente do que niilista, Paradaïz propõe repensar o conceito de casa. (Vasco Muralha)