O passado de Mia podia chamar-se trauma. Gavetas profundas, repletas de objectos e fragmentos de uma infância manchada pelos abusos sexuais do seu pai. Um filme que tanto recria, como redirecciona, um lugar onde a cura não é a chegada ao cais, é a deriva exploratória e intencional.
A revisitação da infância devia ser sempre acompanhada de lembranças bonitas e cheias de cor, mas para alguns recriar o passado é cair num abismo repleto de fantasmas. Neste filme, a casa que devia ser o colo da infância é reconstruída em todos os seus detalhes espaciais, onde cabem os episódios mais hediondos. Em Home is Where the Heart Is, o passado não é apenas lembrado, é posto a nu em todo o seu horror, através de uma performance que recorre à realidade virtual para reconstruir a casa onde Mia viveu uma infância de abusos. Cada detalhe da estrutura, cada objeto que a preenche é um vestígio da violência, das tentativas de descorporização e dos silêncios.
“Sempre que passava a porta desta casa tinha a sensação de que alguma coisa preciosa se havia quebrado.” A memória de uma casa estragada redefine a pessoa em adulta de modos subtis que ligam a violência ao amor e a reproduzem na busca de afecto e compreensão. É preciso reconstruir esta casa para a derrubar ao som da música de Wim Mertens, que vocaliza as emoções quando todas as palavras já foram ditas e nos resta apenas a revolta e o gesto. (Margarida Moz)