A partir da lenda de Nabia, a deusa dos rios e das águas na mitologia galaico-portuguesa, desenha-se sem palavras uma narrativa alegórica que celebra a inserção, na medida da harmonia possível, dos ciclos humanos nos ciclos naturais.
Nabia era o nome atribuído pelos povos ibéricos pré-romanos à deusa da fertilidade, saúde e abundância, muitas vezes entendida como divindade aquática ou associada às montanhas e bosques. Nabia propõe uma revisitação desta figura mítica através de uma névoa iconoclasta que está algures entre os códigos do cinema mudo (a proporção do quadro, a recusa da palavra, a instabilidade do foco, a predominância do plano de conjunto, a dimensão pictogramática das imagens) e as explorações deformadoras do cinema de Alexander Sokurov. O resultado é uma fábula de época tocada tanto pela fantasia mística como pela montagem alada dos sonhos. Humanos e animais dominam este estranho território onde o artifício e o paganismo questionam o sentido do “natural”. Sabrina D. Marques infunde cada imagem (cada gesto, cada olhar) de uma qualidade onírica, diluindo por completo as convenções narrativas e deixando-nos mergulhar, lentamente, neste sono amniótico. Até que, por fim, uma criança chora e o mundo recomeça. (Ricardo Vieira Lisboa)