Material em Bruto foi filmado ao longo de um ano na região do Interior do Douro. Através de testemunhos de comunidades locais, o filme reflete sobre diferentes noções de valor, por vezes conflituantes, em relação à paisagem e como as práticas de cultivo, conservação e extração beneficiam e impactam as pessoas que lá vivem.
As rochas como um alfabeto, matéria primeira que escreve o texto e compõe o livro do solo ou, mais precisamente, a história da Terra. Uma história que se entrelaça com a nossa. Em Raw Material, James Newitt observa as camadas que constituem esse arquivo vivo, investigando tanto a exploração dos recursos naturais (como a extracção de lítio) como as formas de relação íntima entre os corpos que habitam o território.
Entre agricultura, geologia e mineração, relações laborais e afectivas, Newitt opta por escutar sem expor: os testemunhos, sejam de topógrafos, geógrafos ou habitantes rurais, surgem quase sempre sem rosto, deslocando o foco para a matéria, as rochas, as partículas minerais, as ferramentas e o som. Ao captar o gesto extractivista em paralelo com uma possível comunhão, emergem fronteiras difusas: alguém doente confunde o corpo com o solo e chama não um médico, mas um engenheiro da terra.
Num registo entre o experimental e o documental, constrói-se um espaço de escavação sensível que, pouco a pouco, revela um retrato inquietante da região e da materialidade que nos constitui. (Susana Santos Rodrigues)