Uma animação de cores lindíssimas que explora a necessidade absoluta e total de uma mãe se livrar do marido e dos filhos para conseguir ter uma tarde lúdica só para si, no encalço de uma corça.
Desde o início há algo profundamente incómodo neste filme, penso que são as posturas, as personagens hirtas/frontais. Os membros muito crespos, retas que não dobram fora das articulações. Frontais na bidimensionalidade, parecem posar para nós de formas desafiadoras e complexas e fitar-nos depois de assim se situarem. A viragem desta bidimensionalidade no filme acaba sempre por ter algo de apresentação ao espetador. Tudo isto faz imenso sentido para a narrativa do filme. Uma família nuclear, mãe, pai, filho e filha, vive numa casa ao lado de uma floresta. Depois de dois embates fortes com uma caça inesperada, o choque de ouvir tiros, e o face a face com um veado, a tensa – e não completamente feliz – mãe da família entra numa vertigem pulsante. Nas próximas 24 horas a linha entre a fantasia interior/tempo/identidade desmoronam-se e entramos numa versão completamente subjetiva desta crise animalesca de pressões sociais, onde os símbolos e a realidade jogam entre si com igual validade. (Vasco Muralha)