Jaume Claret Muxart é um realizador com o olho de um esteta e uma mão delicada. Aqui, Gal·la trabalha numa rádio e o som, da música, da sua voz, da vida, é a linha que a une ao filho e a um estranho que vem trazer ideias de melodias partilhadas a partir do quarto em que habitam.
Num estúdio de gravação de som, uma locutora deixa-se adormecer ao som de uma sinfonia de Chopin. Daí em diante as fronteiras entre o sonho e a realidade começam a esbater-se. Há que adormecer o filho de oito anos, mas como se a mãe adormece primeiro que ele? Lê-se uma história para embalar e tanto as cores como os lugares oscilam: a contiguidade espacial é quebrada (as ondas da rádio atravessam as paredes), as línguas trocam-se (o catalão, o francês), os géneros musicais alteram-se (eletrónica, clássica, contemporânea), os falsos raccords impõem uma incerteza onírica (o azul e o vermelho das camisolas) e as figuras veem-se desmultiplicadas em reflexos. O sono domina as (in)consciências e é a própria instabilidade da imagem que contamina os sentidos. O segundo filme de Jaume Claret Muxart (o IndieLisboa exibiu Ella i jo em 2021) surge como um leve delírio febril que desemboca no espaço doméstico, impondo-se, por fim, como um comentário solar sobre a conjugação entre o trabalho e a família. (Ricardo Vieira Lisboa)