Um conjunto de VHS antigas revelam aquilo que a memória tornara impossível esquecer: Shayma’ Awawdeh tinha seis anos quando a Segunda Intifada deflagrou em Hebron, Palestina. Crianças brincam sobre os tanques e os escombros enquanto escutamos a voz de Shayma’, dirigindo-se à mãe.
Em Intersecting Memory, a realizadora palestiniana Shayma’ Awawdeh ensaia a reconstrução da memória através de um arquivo pessoal de imagens da Segunda Intifada, abrindo-se a uma experiência coletiva de violência histórica. As imagens de cassetes antigas e a voz-off do filme criam uma tensão entre a nitidez das memórias de infância e a possibilidade (ou necessidade) de esquecer como mecanismo de defesa ou até uma certa forma de sobrevivência. As imagens não se esgotam no seu valor documental: atravessadas pela memória, tornam-se noutro espaço, onde o visível convive com o que é fragmentado ou omitido. No encontro entre imagem e testemunho, o filme ganha intensidade, reativando o imaginário coletivo através de uma voz na primeira pessoa que devolve afeto e presença.
Susan Sontag dizia que a exposição constante a imagens de violência pode gerar uma forma de dormência coletiva. Somos hoje confrontados com essas imagens, mas raramente com a duração e a profundidade do trauma que lhes estão associados. Neste sentido, o filme funciona como um gesto de continuidade da memória, lembrando que a resistência do povo palestiniano não é de todo recente, e testando a própria resistência deste olhar adormecido. O resultado é um filme simultaneamente emocional e político: a história de uma nação plasmada no rosto das mães da Palestina, que resistiram e resistem a todos os massacres, protegendo os seus filhos, como podem, dos horrores a que os querem submeter. (Jéssica Pestana)