Sim, os cuidados de saúde obstétricos também contêm severas desigualdades raciais. Em Fiction Contract, Carolyn Lazard regista a simulação de um parto pela manequim negra Jada — numa encenação perfeitamente surreal e ainda assim tão importante.
Quanto pode uma simulação clínica de alta fidelidade? Qual o valor de um parto de silicone? Para que serve este exercício quando se retira a sua componente pedagógica?
Nesta curta-metragem, uma equipa de urgência obstétrica estabelece um contrato de ficção: um entendimento que estende a quem assiste e que pressupõe a suspensão voluntária da descrença. Ao aceitar esta premissa, abre-se uma janela de vidro unidireccional para um bloco de partos em que Jada dá à luz.
Esta cena quase poderia passar-se em qualquer lugar, mas estamos num hospital que serve das comunidades mais etnicamente diversas do mundo – Elmhurst, em Nova Iorque.
Jada parece nervosa, talvez por saber que por ser negra está potencialmente sujeita a uma taxa de mortalidade materna significativamente superior, talvez por estar consciente de que é a primeira manequim racializada neste centro de simulação. Quando a ilusão se desvanece, ficamos sem saber se o protocolo foi seguido à risca, mas talvez reste alguma esperança no futuro. (Sara da Cruz)