Uma experiência visual sobre uma experiência desfasada geograficamente. O foco desta curta metragem são os trabalhadores que, no sul global, terão de ensinar a Inteligência Artificial que conduz carros a navegar ruas que nunca viram, ruas que se encontram no hemisfério oposto ao onde estão.
Nicolas Gourault retoma o tema dos veículos autónomos para dar voz aos trabalhadores do Sul Global que, no isolamento das suas casas e dos seus países, recortam, identificam e catalogam cada imagem: “pessoa”, “objecto”, “animal”. Tudo é introduzido numa base de dados que visa construir os “olhos” destes veículos robóticos que haverão de circular nas ruas do Primeiro Mundo onde estas pessoas dificilmente se poderão passear. Apesar de essenciais, estes trabalhadores recebem salários significativamente inferiores aos do Norte, reflectindo uma lógica de exploração do trabalho mundial e da desigualdade na distribuição da riqueza global. A invisibilidade deste trabalho e a falta de consciência sobre o valor que gera dificultam reivindicações laborais e acentuam a perversão do sistema.
No entanto, emerge uma esperança: através do acesso generalizado a ferramentas de geolocalização, estes trabalhadores começam a organizar-se, desafiando as tentativas das grandes empresas de reduzir custos através da exploração do trabalho de alguns. (Margarida Moz)