Tudo começa com uma bala, depois é traçar a sua rota. Uma exploração sobre a brutalidade da polícia francesa, que utiliza técnicas cinematográficas modernas e arcaicas.
No seu filme anterior, Contraindre, a dupla Fleuryfontaine (Galdric Fleury e Antoine Fontaine) já havia abordado os temas da violência policial por via da animação 3D, dando corpo digital a eventos de abuso e maus-tratos. Nesse filme, partia-se da técnica de motion capture para se desenvolver uma reflexão conceptual onde se opunha a acentuação das características físicas (a cor de pele, a forma do corpo) à “descorporização” perante as autoridades: um filme feito no intervalo entre a coação e os constrangimentos. Cinco anos depois (já fora do contexto da Le Fresnoy), a dupla prossegue a sua pesquisa de natureza híbrida, onde a animação serve agora como ferramenta de análise de imagens de videovigilância que registaram um ato de violência “não letal”. Soixante-sept miliseconds é um filme sobre trajetórias, sobre corpos e projéteis em movimento; é um filme-denúncia, mas é também um pequeno tratado sobre a validade documental do cinema – algures entre a cronofotografia de Marey e as investigações dos Forensic Architecture. (Ricardo Vieira Lisboa)