Quando o estranho se torna na fonte do nosso medo, a nossa inquietação face ao que nos rodeia transforma-nos em sombras de nós próprios.
A sensação de ser perseguido. Se a história nos faz lembrar a cada instante de mulheres e homens de diferentes religiões, credos e crenças que foram indagados, detidos, presos e condenados à morte, é impossível não olhar para esta animação à luz do tempo em que vivemos. Esta sensação, aflitiva, demonstrativa, desconfortável, é-nos transmitida neste filme através de um jogo de sombras criado a partir da técnica de animação de areia. Se pensarmos na técnica em si, a utilização deste mineral, areia, enquanto um conjunto de partículas de rochas degradadas que se forma pela erosão do tempo, podemos ver uma metáfora do que está escondido debaixo dessa areia, o que está ocultado ou o que não quer aparecer. Pode ser sombra, esconderijo ou prisão, depende sempre da perspectiva de quem olha e de quem é olhado. Daí que Serrazina tenha construído esta obra, ao mesmo tempo abstracta e concreta, com luz e com sombras, ao som de um lamento que vem de longe, de tempo imemoriais e que tinge, rompa, incendeia e causa perturbação. Serrazina volta a surpreender-nos com um gesto cinematográfico contendente. (Miguel Valverde)