Sara perde o seu irmão devido a complicações do vírus Covid-19, iniciando uma viagem onde procura um enterro digno que respeite o seu irmão e a cultura cabo-verdiana. Num mundo silenciado pela pandemia, Sara vai encontrar nas comunidades esquecidas o luto que tanto procura. Uma ode à vida.
Uma mulher de máscara olha para nós, espectadores, num doce e triste lamento, enquanto ouve as notícias da morte do seu irmão, Ulisses Benoliel, na pandemia da covid-19. Esta Antígona/Sara, sinónimo de força e perseverança, quer ter a certeza absoluta que o homem que vai a enterrar é o seu irmão e que o funeral decorra segundo a tradição da cultura cabo-verdiana. Tudo o que era impossível naquele período. Mas o coração e a determinação de Sara, cuja câmara olha obstinadamente e exacerba (e apazigua) cada emoção, leva-a a mover montanhas. Este primeiro filme de Mira Godinho, que conhecemos de outros projectos de Leonor Teles, Miguel Nunes e Bernardo Lopes, demonstra a força do seu olhar, a sua capacidade de síntese e um trabalho delicado com não actores, que provém de uma vontade comunitária de celebração do cinema, feito com as pessoas e com as suas emoções. É, por isso, que sentimos que esta estreia na realização é algo de precioso e único. Um filme que vai ficar, que se vai gostando cada vez mais e que o futuro demonstrará o seu lugar. (Miguel Valverde)