Quando olho para o meu amor, ele olha para o rapaz à sua frente, mas só vemos as costas um do outro. Nunca o rosto. Porque não estamos a dançar todos juntos. Estamos em pares. E nesta dança, o meu amor não existe. Arrasto-o para dentro dela, mas só as costas. E foi pelas suas costas que me apaixonei. As suas costas largas, vestidas com o traje mais bonito do mundo, que são todos os trajes que ele vestia.
Uma voz sussurrada conta-nos uma história de amor e desamor. Na imagem, sob um fundo negro, sucedem-se fotografias que compõem na imagens diferentes configurações. São quase sempre fotografias noturnas marcadas pela acutilância do flash. A câmara fotográfica de Miguel De está particularmente atenta aos pormenores do kitsch rural: as flores de plástico, motas embrulhadas em lonas, alcatifas pisadas, iconografia religiosa, arame farpado e, claro, o universo das danças e vestes do rancho. Mas aquilo que facilmente poderia ser um olhar altivo é, de forma tocante, uma demonstração de carinho. O contexto do folclore serve como catalisador de um hiper-romantismo ingénuo que tem a força desarmante do seu tom confessional. Isso e, claro, o jogo em torno dos papéis de género definidos pela tradição (“que sem o ‘d’ de dor é apenas traição”), postos em causa pela história de amor entre dois rapazes. O lenço torna-se símbolo de desejo, com o vermelho a encarnar o ardor da tesão. As narrativas que a câmara inventa em cada fotografia rasgam a continuidade entre som e imagem. Até que, como em La Jetée, a fixidez fotográfica ganha movimento com a força de um olhar. (Ricardo Vieira Lisboa)