Quem nunca passeou pelos caminhos e sepulturas do cemitério Père-Lachaise enquanto sonhava com romances góticos e ouvia masoquistamente “Tous les garçons et les filles” até descobrir um desenho de um casal particularmente intrigante que atire a primeira pedra.
Há cineastas que, pela sua prática constante, surgem no panorama cinéfilo como metrónomos. Friedl vom Gröller é uma dessas figuras. Todos os anos produz entre dois e seis filmes em película, quase sempre a preto e branco, usando apenas um único rolo 16mm, pelo que os filmes têm, por norma, a duração máxima de três minutos. Cada novo filme marca uma mudança de estação ou o início de um novo ano. São registos fugazes e líricos do quotidiano: retratos de amigos (ou para amigos), memórias de viagens ou de encontros, comentários irónicos ou parabólicos sobre a atualidade. Jelena parte de uma canção, cantada à capela por Jelena Arrouas, “Tous les garçons et les filles”. Vom Gröller pontua o filme com imagens descarnadas, que estão para lá da ilustração: uma mão à janela, uma escadaria pedregosa, uma alameda vazia, dois rostos num túmulo, uns olhos penetrantes, uma panorâmica encarando o sol de Inverno. Um prenúncio de morte brota da melancolia amorosa da canção. (Ricardo Vieira Lisboa)