Em Ivar, o primeiro filme do norueguês Markus Tangre, há marionetas submetidas ao “realismo social quotidiano”. Anne nota uma mudança súbita no cheiro do seu marido e a noite transforma-se em auto-questionamento.
Em Ivar, entramos na mente de uma mulher prisioneira de um casamento de longa duração. Ivar, seu esposo, não é já o homem por quem se apaixonou – ou talvez tenha começado a revelar-se exatamente o que sempre foi, desde que ela deixou de o idealizar. Um homem comum, banal, até, mas analisado agora pela lente cada vez mais meticulosa e implacável da esposa que não o suporta mais. E sob essa lente, o banal transforma-se noutra coisa, abominável, repulsiva, odiosa.
O amor morreu e a paixão está há muito enterrada no pântano das rotinas, dos silêncios e – pior do que tudo – dos hediondos pequenos hábitos da pessoa amada. Ora, ela não deseja menos do que ser fulminada por uma paixão ardente, daquelas que desarrumam uma vida inteira. Mas não com Ivar. Enquanto isso, Ivar é perfeitamente feliz. Leva a vida pachorrenta de um homem que acredita sinceramente que está tudo bem. Vai vivendo, molengão e satisfeito, completamente alheio ao facto de que, dentro da cabeça da própria mulher, é todas as noites levado ao banco dos réus para ser julgado, condenado e devidamente executado.
Entre as fantasias de uma ruptura sonhada por dela e a aridez bem real do quotidiano a dois, abre-se um abismo imenso, tão desconfortável quanto cómico, de tédio e estranhamento. O casamento arrasta-se, teimosamente vivo. (Jéssica Pestana)