Uma colagem found footage ergue-se perante cinco arquivos no Egipto pós-Primavera Árabe. Um activista no exílio, a recruta de um grupo de cadetes de uma academia militar, uma série televisiva, entre outros retalhos de uma geração oriunda de uma revolução falhada. Este filme resgata a propaganda (tão performativa) do corpo masculino atlético como agente máximo do estado autoritário comandado pelo Presidente el-Sisi.
O activista Wael Ghonim, informático e ex-executivo da Google, foi uma figura central da Primavera Árabe no Egipto em 2011 e, neste filme, surge também elemento central, vários anos depois, em exílio, entre a lucidez e o colapso mental de alguém que viu ruir todos os sonhos de uma revolução que desaguou numa nova autocracia. Assistimos a um trabalho de arquivo fascinante e avassalador, que expõe a estetização da violência, o culto do corpo – mesmo em crianças – como máquina de guerra, a repressão transformada em entretenimento e o revisionismo histórico, todos promovidos pelo regime do presidente el-Sisi. Uma denúncia e alerta sobre a máquina de propaganda ao serviço de um autocrata. No Egipto, como em todas as outras autocracias no mundo ou que para lá caminham. (Carlos Ramos)