A dúvida instalou-se nos caminhos entre a casa e a igreja. Sobre a vaga lembrança da fé que lhe era certa, uma freira repete rituais inférteis e mecânicos, na esperança de uma resposta diferente. Na penitência involuntária que arrisca o profano, parece recear tanto o abismo do luto quanto a potência luminosa do êxtase.
Neste dia em que celebramos o Papa Francisco, continua a perpetuar-se a ideia de que a igreja é feita de “rituais mecânicos e estéreis”, repetitivos sempre à espera que alguma coisa mude ou se dê o milagre. Num preto e branco muito contrastado, que se ilumina a cada plano, a cada instante, surge este primeiro filme de Pedro Baptista que nos traz uma freira que seguindo a sua vocação e o movimento que se espera dela, começa a ter dúvidas. Começa a questionar-se, a olhar em volta, a tomar consciência dos seus próprios movimento repetitivos. E daí que o profano se imiscui, que as trevas e a luz lutam, e que o resultado é incerto. Num jogo complexo com uma coreografia de um corpo, uma igreja, uma paisagem campestre e um silêncio sonoro, funde-se um momento de cinema. E agora, que caminho sigo? (Miguel Valverde)