A cor, pode dizer-se, é aquele verde-fluorescente tão típico dos casacos que envergam os trabalhadores municipais de resíduos. O filme de estreia de Raphaël Kaddour guia-nos pelo dia-a-dia do Recypark Buda: mais sobre as pessoas, menos sobre o lixo.
Num centro de reciclagem na Bélgica, Buda acompanha o quotidiano dos trabalhadores nas trincheiras do atendimento ao público: exigências, reclamações, queixas, e o cliente tem sempre razão. Tal como em tantos outros contextos, estes funcionários limitam-se a cumprir instruções superiores, mesmo quando dão a cara por decisões que alguém tomou por eles. De ambos os lados deste confronto emergem perfis diversos: há clientes que descarregam frustrações nos trabalhadores, outros que direcionam a sua insatisfação para a empresa, e ainda aqueles que reconhecem a dureza de quem ali trabalha. Insatisfeitos ou não, quem os ouve encolhe os ombros – não há muitas alternativas.
E, pelo meio, as habituais interações entre colegas que, nas pausas para o café ou nos momentos livres, refletem sobre exaustão mental e o peso sufocante do trabalho, ideias sobre “sucesso” e o sentido da sua missão. Ao fundo do túnel, a visão mirífica da reforma, que gozaremos quando for hora de morrer.
Sob diferentes pontos de vista e entre fragmentos de diálogos, o filme revela a pressão psicológica do trabalho no nosso século – e em particular no chão de fábrica – e questiona um sistema que trata os colaboradores como meras ferramentas. (Jéssica Pestana)