António e Jota regressam da frente de batalha com os seus camaradas, em busca de umas antigas termas romanas. Entre risos, recordam glórias tácticas do passado. As termas reapareceram após muitos anos submersas pelas águas de uma albufeira, atraindo visitantes de todas as idades, fascinados pela descoberta. Mas há algo de misterioso nestas águas termais — como se influenciassem o humor dos homens, oferecendo-lhes a coragem para dizer aquilo que nunca ousaram confessar.
José Tolentino de Mendonça, no seu livro A Mística do Instante, desafia-nos a pensar o tempo não apenas horizontalmente, isto é, como uma sucessão narrativa de instantes, mas também verticalmente. O tempo vertical não é cronológico e repete-se pela eternidade; é a respiração diária do universo: a passagem do dia para a noite, o movimento das estrelas, a queda da chuva. E, por poder literalmente registar o tempo, o cinema é a arte mais capaz de nos aproximar dessa respiração. Na extraordinária estreia de Gabriel Azorín, o foco recai precisamente na articulação desta verticalidade: vemos duas histórias passadas no mesmo local, num banho termal romano, mas separadas por 2000 anos. Em ambas as histórias, homens frágeis confessam os seus ternos anseios a amigos íntimos. Estão sob o mesmo céu e estrelas, banhando-se nas mesmas termas, separados pelo tempo, mas misteriosamente entrelaçados.
Na preparação para a estreia do seu filme em Veneza, Azorín escreveu que “todos os filmes apresentam um conflito entre a linearidade e a circularidade do tempo. O cinema tem uma forma única de se apresentar como uma experiência fugaz e permanente ao mesmo tempo, lembrando-nos que a vida é efémera enquanto nos abriga numa temporalidade habitável e eterna”. Confrontarmo-nos com a natureza vertical ou circular do tempo é recordar a sua passagem, e nas palavras de um dos grandes: “Desprezo as histórias, pois enganam as pessoas, fazendo-as acreditar que algo aconteceu. Na verdade, nada acontece realmente enquanto fugimos de uma condição para outra… Tudo o que resta é o tempo. Esta é provavelmente a única coisa que ainda é genuína — o próprio tempo; os anos, os dias, as horas, os minutos e os segundos”.
Nabil Aouad