O trabalho de Suneil Sanzgiri tem-se definido por uma contínua pesquisa das histórias de luta anti-imperialista e anti-colonial no Sul Global — a partir da sua genealogia familiar de resistência em Goa, perante a ocupação portuguesa. Eis uma carta impossível escrita para Sita Valles, médica angolana de origem goesa, que depois do 25 de Abril saiu de Lisboa para se juntar ao MPLA. Um filme que se desdobra em técnicas cinematográficas e se ancora numa estética mutável para tentar perceber afinal o que é isto da luta.
Como desenterrar as solidariedades que o tempo e o colonialismo tentaram apagar? O realizador traça uma cartografia latente de movimentos anticoloniais que unem a Ásia e a África sob o antigo jugo português. Seguindo o rasto da revolucionária Sita Valles — nascida em Goa e morta em Angola —, o realizador desvenda ligações profundas entre lutas que, embora pareçam desconectadas, ecoam na mesma frequência de resistência. Através de um dispositivo visual envolvente, onde a película de 16mm é literalmente enterrada e recuperada da terra, o filme opera como uma escavação arqueológica e narrativa. Sanzgiri contorna o que parece invisível ou impossível de traçar, para reconectar o poder das solidariedades afro-asiáticas. (María Angélica Contreras)