Num futuro distante, o mundo do eterno presente é habitado por seres bio-mecânicos-digitais-eletrónicos. Mas um desses seres não crê que assim sempre tenha sido e parte numa viagem de descoberta em 3 etapas. Tais etapas são feitas de pinturas em movimento, imagens corroídas pelo glitch e animação 2D e 3D, entrelaçadas pela voz de narradores-poetas e por música, num objeto sci-fi simultaneamente subversivo, aventureiro e infantil.
Memórias do fim dos tempos ou o relato de um tempo em colapso? Ambas, arriscamos. A voz é de Bernardo Devlin, a música e os textos são de Jorge Ferraz. O primeiro foi membro dos Osso Exótico, nome de destaque da música experimental portuguesa, e é, a solo, figura de culto dona de uma já extensa discografia. O segundo, enquanto líder dos Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre, autores do Free-Terminator (1989), deixou marca destacada no rock exploratório português.
Também membro dos efémeros João Peste & O Acidoxibordel, Ferraz prossegue actualmente a sua pesquisa musical, numa intersecção eléctrica-electrónica-poética, a solo ou no colectivo multimedia Cellarius Noisy Machinae. É deste que emana Vintage Glitch, ficção científica do tempo presente, reflexão distópica com os dioramas digitais de Carlos M. Ferreira como cenário que as paisagens sonoras completam. As palavras, entre a memória do que foi e a insustentável instabilidade do presente, são o guia a seguir na realidade fragmentada que Ferraz e o colectivo nos apresentam. (Mário Lopes)