Pouca gente pode alegar ter a relevância histórica de Jocy de Oliveira. Pioneira da música electrónica no Brasil — com peso equivalente a nomes incontornáveis como John Cage ou Karlheinz Stockhausen —, foi ainda uma pianista brilhante, sendo inclusive solista perante a direcção de Stravinsky. O filme de Dácio Pinheiro reúne o seu legado sem deixar de olhar para o presente, um tempo onde a compositora brasileira, aos 90 anos, continua a criar ópera experimental.
Jocy de Oliveira faz 90 anos em 2026 e continua a criar. Dácio Pinheiro oferece-lhe uma prenda antecipada com este filme, um reconhecimento histórico do trabalho e da vida da pioneira da música electrónica no Brasil. Contemporânea de nomes como John Cage, Karlheinz Stockhausen, Luciano Berio e Igor Stravinsky — com quem conviveu, influenciou e foi influenciada, além de colaborar — Jocy construiu um percurso singular. Este é um filme com o perfil de descoberta dentro do IndieMusic: obras que nos apresentam artistas menos conhecidos, mas que é urgente conhecer. Quem se lembrar do filme Electronica:Mentes (IndieLisboa 2020), do mesmo realizador, que retrata a ascensão da música electrónica no Brasil a partir dos anos 60, recordará a fulgurante presença de Jocy de Oliveira: pianista, compositora, performer, criadora de óperas e muitas outras coisas mais, sempre a fugir de rótulos e a experimentar, uma das figuras emergentes daquela época. A sua liberdade artística e criatividade radical levaram Dácio Pinheiro a dedicar-lhe este filme, agora em merecido nome próprio. Um filme fragmentado, poético e circular, como a sua obra. Jocy de Oliveira faz 90 anos em 2026 e continua a reinventar-se. (Carlos Ramos)