Só sobra a cidade, só ela é capaz de amparar. Depois de um final de relação inesperado, May, mulher coreana radicada em Berlim, procura pistas para a superação enquanto vagueia pelas ruas e jardins. A cada esquina, um regresso à sua Seul, uma barafunda de tempos e lugares, uma sensação de não-pertença. É no novo quotidiano, na mundanidade, em noites de clementinas no sofá, em aulas de dança, que May prossegue.
Para a sua primeira longa-metragem, a realizadora Lan-Xi Ruan pegou numa protagonista coreana, May, que vivencia algo muito próximo da sua própria experiência: a de ser alguém expatriado, a viver em Berlim. Está perdida, por um lado, entre as memórias de uma casa, de um espaço familiar, de um lar que já não lhe pertence e, por outro, imersa no imediato da sua vida e de todos os momentos que a compõem: um jantar que se torna um rompimento amoroso, uma sala onde vive a intimidade da amizade, uma floresta sente a liberdade da natureza, ou um passeio onde encontra um ex-amante e vive as suas fantasias de confrontação. A realizadora filma tudo isto com um encanto, uma limpidez e uma elegância que é difícil descrever, mas é palpável no ecrã. Os acontecimentos são subtis, mas revelam pistas para a vida interior de May. Estes momentos quotidianos, que como espectadores podemos espreitar sem sermos detectados, são ainda divertidos (às vezes anedóticos, às vezes brincalhões), porque mesmo na melancolia trespassa o humor.
Ana Cabral Martins