Uma família originária de Lugo, Espanha, é dona da confitería Ritz, uma instituição da cidade argentina de La Plata. É precisamente nesta que tudo decorre, numa série de acontecimentos estranhos, cómicos e melancólicos, que sugerem mais uma ideia de quadros do que de sequência narrativa — tão própria da linguagem de Lucía Seles. Personagens perdidas, num desespero com problemas de comunicação.
Lucia Seles diz-se grafomaníaca e, em The Bewilderment of Chile, mostra-nos generosamente as suas observações sobre aquilo a que poderíamos chamar de a nossa necessidade de consolo, que, como já dizia alguém, é impossível de satisfazer.
Entre a edição caótica, o chinfrim de um elenco que gravita em torno de uma pastelaria em La Plata, que eleva o filme a níveis de telenovela, e as notas escritas que aparecem lado a lado com as legendas, poderíamos enlouquecer na sala de cinema, não fosse o controlo subtil que a realizadora exerce sobre todos os momentos. E é neste gesto que o impulso pelo mero registo se transforma numa comovente tentativa de dar sentido à nossa confusão colectiva.
The Bewilderment of Chile é uma experiência sensorial exigente, que espelha uma certa fragmentação contemporânea, mas que nunca deixa de nos dizer que ainda vale a pena tentarmos dizer umas palavras.
Leonor Castro Nunes