O homem, quase-mito, que em 1914 nasceu Herman Poole Blount, na cidade de Birmingham, Alabama, depressa virou Sun Ra, uma figura solar no movimento free jazz do século XX; um egiptólogo que nesse berço civilizacional encontrou o afrofuturismo, um filósofo que fundou a sua cosmogonia e a atirou para dentro de um teclado. Através de testemunhos de membros da sua Sun Ra Arkestra e de registos de arquivo, Christine Turner revela-nos a galáxia deste pioneiro. Um filme, um meteoro, uma viagem no tempo.
Não é uma surpresa que o filme comece com “Over the rainbow”. Porque esse standard será progressivamente transformado às mãos do homem nascido Herman Poole Blount, e porque aquilo de que fala, esse sítio onde se concretizam os sonhos que ousamos sonhar, dizia muito a Sun Ra, chegado ao mundo (via Saturno, obviamente) em 1914, em Birmingham, Alabama.
Génio jazz, criador de uma mitologia afro-futurista onde se reuniam o Antigo Egipto, ficção científica e a luta pelos direitos civis, não foi apenas agente de uma revolução musical. “O possível foi tentado e falhado, agora é tempo de tentar o impossível”. Daqui extraiu Christine Turner o título do documentário.
Com depoimentos dos elementos da sua Arkestra, de historiadores e de investigadores, com iluminadoras imagens de arquivo, da música nos palcos ao cenário de Sun Ra em caminhada pelas pirâmides de Gizé, “Sun Ra: Do the Impossible” é um mergulho revelador no universo de um dos músicos mais fascinantes e surpreendentes músicos do século XX. (Mário Lopes)