Ahmir “Questlove” Thompson e o produtor Joseph Patel já se tinham juntado para o documentário Summer of Soul — um filme que teve passagem no IndieLisboa e acabou por vencer o Óscar de Melhor Documentário em 2022 — e, agora, regressam com outra história enraizada na cultura afro-americana. Desta vez, o sujeito do seu olhar é a estrela fulgurante que foi Sly Stone nos anos 1960 e 1970, e que depois viu a carreira cair na obscuridade. O filme vai além desta lenda musical para explorar as dificuldades particulares que artistas negros enfrentam.
O génio musical é inegável e é reconhecido. Está bem medido, preservado e cotado em álbuns como “Stand” ou “There’s a Riot Goin’ On”. Ainda assim, perante aquilo que Sly Stone construiu, uma nova e inaudita música para uma outra América possível, não menos, perante aquilo que os seus Sly & The Family Stone foram e representaram durante a turbulenta passagem dos anos 1960 para a década seguinte – a banda mais importante do período, reis incontestáveis dos palcos, autores do melhor concerto de Woodstock -, o retrato que a posteridade deles guardou parece demasiado esbatido. Entra em cena Questlove, o extraordinário baterista dos Roots tornado realizador com “Summer of Soul” (2021), que persegue uma história extraordinária, a de uma banda multirracial, formada por homens e mulheres, liderada por um músico visionário que soçobrou perante o peso da sua ambição, as tentações trazidas pelo sucesso e a pressão de ser voz e corpo negro a irromper sem freio no coração de uma América que só recentemente saíra da ignomínia da segregação. (Mário Lopes)