Em 1988, na última grande performance pública da Jugoslávia comunista antes do deflagrar da guerra, Sonja Vukićević — uma das grandes bailarinas da Sérvia, conhecida também pelo seu activismo anti-Milošević — protagonizou um solo histórico perante um estádio cheio. Num ginásio da Belgrado de hoje, vemo-la regressar ao relvado: o seu corpo como arquivo da memória colectiva.
O bolero de Maurice Ravel é uma obra no feminino, pois emerge de um pedido da bailarina Ida Rubenstein, conhecida pela sua expressividade e audácia em palco, que foi a sua protagonista na estreia em Paris, em 1928. Desde aí foi muitas vezes coreografado e interpretado por grandes nomes da dança e, sobretudo, nos anos 80 do século passado, teve diversas reinterpretações e foi testemunha de grandes momentos na história. A cineasta Marta Popivoda, grande cineasta de mulheres, volta ao arquivo para recuperar a performance da bailarina originária da Sérvia, Sonja Vukićević (uma conhecida activista anti-Milošević), que em 1988 protagonizou um solo histórico perante um estádio esgotado com o famoso bolero na antiga Jugoslávia. A data é histórica para a Sérvia, porque antecede a guerra, mas ao mesmo tempo, é um lugar de afirmação de um corpo num espaço e na história. A performance evoca os desejos mais profundos, o esforço, a vida que há num corpo e a materialização através do movimento, daquilo que é o segredo que cada um transporta através do seu próprio corpo. Entre a data de 1988 e os dias de hoje, o corpo de Vukićević activa a evocação desta mesma memória colectiva, porque afinal o movimento sincopado, uniforme e repetitivo desta obra que foi composta para a sua transformação através dos diversos instrumentos de uma orquestra, devolve-nos um corpo cujos movimentos são a síntese dessa mesma construção. (Miguel Valverde)