Kiyoshi Kurosawa revisita e refaz o seu Serpenth Path original de 1998, agora numa cooperação com a Cinefrance Studios. Feito com mão segura e clínica — Alfred Hitchcock aprovaria —, há algo denso, tematicamente falando, e bruto neste filme que nos pergunta se a vingança tem realmente um fim. Unidos pela necessidade de retribuição, um homem a quem a mataram a filha e uma mulher repleta de mistérios vão em busca dos responsáveis. E será que alguma vez pararão?
Remakes estão na moda, mais em Hollywood, certo, mas não deixam de estar na moda. 26 anos depois do original Serpent’s Path (1998) Kiyoshi Kurosawa entra num pequeníssimo círculo de realizadores que fizeram um remake de um filme seu mais antigo, círculo esse com Alfred Hitchcock (The Man Who Knew Too Much de 1934 e 1956) mas também Michael Haneke (Funny Games de 1997 e 2007). O remake é um bicho estranho, muitas vezes a razão de existirem é estritamente monetária. É fácil odiar um remake para um cinéfilo, o filme original já existe, porquê voltar a fazer???? Entre outros pleonasmos. Eu compreendo este ponto de vista e por vezes podem-me encontrar a participar activamente com uma resposta do tipo. Mas às vezes, a razão de refazer um filme não é completamente monetária, por vezes é “uma pulga atrás da orelha” que fica e fica e fica e fica… Um realizador refazer o seu próprio filme será sempre uma proposta inerentemente interessante, seja por razões formais, narrativas ou académicas. 2024 foi um ano abençoado com três filmes do Kiyoshi Kurosawa, para além de Serpent’s Path podem ver também o excelente Cloud na secção Silvestre. Eu cá fico muito contente que Kiyoshi Kurosawa tenha decidido tratar da sua “pulga” 26 anos depois. (Rui Mendes)