O hotel respira. Estremece. Aguarda. Só Yessica o ouve, só ela vê o que se contorce debaixo da superfície. Hoje, decide agir.
De Gonçalo Almeida vimos o recente multipremiado Atom & Void, onde através de um percurso de uma aranha, conseguimos intuir o fim do mundo. Almeida tem uma grande capacidade para criar outros mundos dentro do nosso mundo, sem o uso do artificialismo. Ele usa a composição do som e da imagem, criando organismos vivos que podem ser objectos, animais ou pessoas. No seu novo filme Quietud, o hotel é um desses seres vivos à procura do seu espaço. Ele respira, dá ordens, move-se lentamente através dos turistas e dos seus funcionários até que Yessica o ouve e a partir daqui o filme idealiza-se numa fantasmagoria realista, em que nada nos assusta, mas tudo é preocupante ou inquietante. De novo, em pouco minutos, Almeida consegue tirar-nos da segurança da cadeira da sala de cinema para olharmos para o lado só para verificarmos se está tudo bem. Estará mesmo? Sendo uma das novas vozes do cinema português, este cineasta nascido em Santiago do Cacém, está cada vez melhor e recomenda-se. (Miguel Valverde)