Este filme celebra a vida e a obra de Zurita de Oliveira, música, intérprete, compositora e autora, que muitos reconhecem como a pioneira do rock & roll em Portugal. Fez da música um ato de desobediência, abrindo caminho num tempo com pouco espaço para mulheres livres. Entre canções e testemunhos, o filme recupera a sua memória e faz das suas letras inéditas um gesto de resistência, cantado e tocado por mulheres de hoje.
A pergunta do título é uma provocação que lança a outra pergunta colocada pela realizadora Francisca Marvão “Porquê apagar as mulheres na História?”. Zurita de Oliveira é considerada a primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar uma música rock, intitulada O bonitão do rock, editada num EP em 1960, mas permanece imensamente desconhecida do público português. Francisca faz aqui uma recuperação (e reparação) histórica, ao investigar a vida de uma mulher revolucionária. Este gesto mantém o importante corpo de trabalho da realizadora em resgatar da invisibilidade as mulheres no mundo artístico, tal como o tinha feito no seu anterior filme Ela É Uma Música (IndieLisboa 2019). Rodeando-se de várias mulheres músicas, algumas das quais formam bandas para o filme, Francisca constrói um espaço de criação onde se interpretam versões das músicas de Zurita e se compõem novos temas a partir de letras inéditas descobertas durante a investigação. É essa dimensão que transforma o filme num corpo híbrido entre documentário, ficção e concerto, constituindo uma das suas maiores forças. Caminhemos para um mundo em que ninguém tenha medo de Zurita de Oliveira. (Carlos Ramos)