Mateus Lagoa e a sua esposa Irene preparam-se para celebrar o vigésimo aniversário de casamento num luxuoso resort numa ilha tropical, deixando o filho adolescente perigosamente à deriva.
Há no cinema de Sandro Aguilar uma característica que o torna distinto de todos os outros cineastas portugueses. A sua capacidade de contar narrativas elípticas, ao mesmo tempo acompanhadas de intemporalidade, de intextualidade entre texto e imagem, que corporizam sempre em objectos artísticos únicos. Primeira Pessoal do Plural, adiciona às suas obras anteriores humor, sensualidade e elegância. Estamos perante uma obra de cinema que não responde (como o cinema actual tende a fazê-lo) às questões que fazem parte da agenda do dia. Este cinema de Aguilar insere-se numa linha mais profunda do cinema, que é a da reflexão da imagem e do som, para um tempo próprio e que é condicionado pela experiência do próprio cinema. O trio de actores, Isabel Abreu, Albano Jerónimo e Eduardo Aguilar, desmultiplicam-se em personagens, criando formas que extravasam a normal composição de um personagem, porque falam com o corpo, com as suas expressões e com a sua presença. Este é um filme que sendo fora de um tempo presente, nos remete para o nosso presente. Um casal comemora 20 anos de casamento e vai de viagem, o seu filho fica em casa no meio das dúvidas da sua adolescência/juventude. A partir daqui as possibilidades são infinitas, porque é o gesto, o improviso controlado e a noção de narrativa de Aguilar que comandam, qual maestro, uma orquestra de elementos que nos conduzem à Marienbad portuguesa. (Miguel Valverde)