Maxwell Alexandre nasceu e cresceu numa das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha. Aos 28 anos, ele estoura no mercado da arte contemporânea e as suas obras são vendidas por preços exorbitantes. O seu sucesso esconde uma realidade dolorosa e evidencia um sistema estruturalmente racista.
Os filmes constroem-se de muitas maneiras e Pardo é Papel não é excepção. O seu autor, cineasta francês formado em matemática e com estudos de ciência política no Chile, foi aqui que começou a sua aventura no cinema. E talvez por isso, o seu território de trabalho esteja fora da elite do cinema, mas próximo do autor. Daquele que trabalha diariamente e do seu movimento faz arte, mesmo quando o barulho inerente às suas origens parece impedir uma entrada num museu. O artista Maxwell Alexandre nasceu e cresceu numa das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha. E com isso, o seu destino parecia traçado, quando muito à arte de rua. O filme mostra o processo do trabalho absolutamente incessante do artista – ele nunca para de trabalhar – e, ao mesmo tempo acompanhamos a preparação de uma exposição em Paris, no Palais de Tokyo, talvez um dos lugares mais elitistas do mundo da arte contemporânea. Qual é o lugar do artista e qual é o lugar da obra questiona o próprio artista e o seu realizador? Este é um retrato cheio de dúvidas, de questionamentos, e até de contradições. Porque se o mundo da arte é estruturalmente racista, o facto do artista se incorporar e ter lugar nele, coloca-o no lugar do impostor. E as suas obras em papel pardo falam disso mesmo: os seus protagonistas não são os visitantes do museu, são os que lá trabalham, sobretudo nos trabalhos mais precários. Como se mantém a coerência do discurso fazendo parte desse sistema? Daí que este filme não se coloque no lugar do emaravilhamento, mas da consciência social, dos sistemas de poder, da representação e das hierarquias raciais. (Miguel Valverde)