Portugal, 1968. Salazar, o ditador fascista que no mundo mais tempo esteve no poder, cai de uma cadeira e tem um AVC. Quando volta ao palacete de São Bento para convalescer, já não é Presidente do Conselho. Mas ninguém lhe contará a verdade: nem a fiel governanta Maria de Jesus, nem as solícitas criadas Aparecida, Socorro e Teresinha, nem o seu médico pessoal.
Nos últimos anos do regime fascista em Portugal, isolado no Palácio de São Bento, Salazar vive numa bolha cuidadosamente fabricada por uma governanta austera e três criadas submissas. Um mundo de faz de conta, onde o poder é uma ilusão mantida a todo o custo. O palácio, como o país de então, está marcado pela violência das pequenas coisas e por relações onde a mentira e a obediência se confundem. Através de alucinações e pesadelos, o filme mergulha na mente de um ditador em declínio, revelando pelo lado animal uma hipótese de desumanização operada pelo fascismo, bem como a nostalgia de uma ruralidade idealizada. A figura da governanta Maria, interpretada com assombro por Catarina Avelar, impõe-se como símbolo do controlo e da obediência. A primeira longa-metragem de ficção de José Filipe Costa resgata um episódio pouco conhecido, ausente dos manuais escolares, que acaba por reflectir, talvez sem o esperar, os ecos assustadores desse passado no presente: a ilusão da ordem, o culto da família tradicional, o medo, o autoritarismo que, ontem como hoje, se insinua nos discursos e nos gestos do quotidiano. (Carlos Ramos)