Houve um tempo em que os festivais de música eram lugares determinantes. O Newport Folk Festival, em Rhode Island, tanto foi música, como foi activismo. Situado entre as edições de 1963 e 1966 do evento, este filme revela-nos uma nova geração da folk music estado-unidense onde despontaram nomes como Joan Baez, Johnny Cash e Bob Dylan — que em 1965 chocou o mundo ao tocar três faixas com uma guitarra eléctrica, largando a sua abordagem acústica, num momento que ficaria para a história da música.
O mito que prevaleceu conta que Pete Seeger, enfurecido, correu com um machado nas mãos para cortar a alimentação do palco, para acabar, no fundo, com aquela traição, com a ignomínia de ver o outrora jovem profeta da folk convertido à perversão eléctrica, ao rock’n’roll. O local era o Newport Folk Festival, o ano, 1965. É aí que regressamos em Newport and the Great Folk Dream. Regressamos não para confirmar o mito, mas para descobrir a verdade. E a verdade é muito mais complexa, interessante e reveladora que o mito – Dylan eleito como rosto culpado de algo que, na verdade, estava para além dele.
Criado a partir das 100 horas de fita registadas por Murray Lerner, realizador de Festival (1967), entre 1964 e 1967, apresentando uma galeria impressionante de nomes lendários (Johnny Cash, Mississipi John Hurt, Son House, Staple Singers, Dave von Ronk, Odetta, Pete Seeger, Bob Dylan, Joan Baez), Newport and the Great Folk Dream é a história de uma utopia folk, breve e insustentável, a dar lugar a um mundo de rock’n’roll e contracultura que assoma perante nós como surpreendentemente contemporâneo. (Mário Lopes)