Daria jeito que as palavras servissem para atenuar o espaço entre as pessoas. Infelizmente, nem sempre é assim. É o caso de Thomas e Carla, que vêem a fenda relacional entre ambos agudizar-se após um acidente de automóvel da segunda, quando ia, na companhia do seu parceiro de dança, ver uma casa no interior.
Permitam-me a hipérbole quando digo que nada no mundo é tão complicado como as relações entre dois seres humanos que decidiram juntar os trapos e fazer uma vida em conjunto. Ok e cirurgia cerebral, perguntam vocês? Sim, é complicado mas existe treino para isso. No entanto, ninguém nos treina para quando a pessoa com quem escolhemos passar o resto da vida está a chorar, podemos falar e acima de tudo podemos ouvir mas é um especial tipo de desempoderamento. Por muito que sintamos que estamos a ajudar é impossível não nos sentirmos desadequados. E quando nada parece funcionar, que tal um abraço? Um abraço pode curar muita maleita mas por vezes não chega. Queremos ultrapassar a barreira física e abraçar directamente o coração. Mas como se ninguém nos treina?
Angela Schanelec está de volta ao IndieLisboa depois de Music (2023) com o magnífico My Wife Cries que nos mostra que o cinema é mesmo uma máquina de empatia. Não existe treino convencional para relações pois somos todos combinações infinitas de personalidades mas o cinema tem tudo o que precisamos para aprender. Tal como quando vemos alguém que amamos a chorar, se observarmos muito e ouvirmos muito, talvez, aprendemos alguma coisa e nos aproximamos de conseguir abraçar o coração de alguém da mesma maneira que o cinema faz connosco constantemente. (Rui Mendes)