A casa de Tere tem plantas, uma luz própria, e é o local ideal para a primeira entrevista televisiva concedida por Rosa, amiga da anfitriã e música proeminente. A filha de Tere, também artista, junta-se à dupla e um longo e irónico debate sobre a hipocrisia no mundo da arte se ergue. Se a isto juntarmos as falhas de electricidade, o ladrar teimoso de um cão vizinho e outros sons cómicos e insistentes, temos a receita perfeita para uma ode ao quotidiano como matéria-prima de excelência.
Numa metrópole como a Cidade do México, com cinco milhões de carros em trânsito por dia, engarrafamentos são uma vista comum. Após os créditos iniciais sobre um cruzamento congestionado e barulhento, somos levados ao apartamento de Tere, onde se passa o filme todo. Tere é violoncelista e compositora. Hoje recebe Rosa, outra compositora, e os jornalistas que vão entrevistar a amiga. Na maioria, corre mal: problemas técnicos, uma falha na eletricidade, um cão a ladrar durante a gravação, e a filha de Tere, Luisa, cujo pai é um compositor conhecido, lança constantemente comentários sarcásticos. Nesta tenra comédia, Nicolás Pereda surpreende através de uma câmara sequíssima e hilariante, e um elenco irreverente e magnético, composto pelo grupo de atores habitué do realizador. Destaca-se a dupla de mãe (Teresita Sánchez) e filha (Luisa Pardo), que revelam como o mundo masculino da arte as excluí, mas, pelo seu humor e cumplicidade, apreciam juntas a bela harmonia na cacofonia do quotidiano.
Falcão Nhaga