Um filme passado em momentos diferentes: no século XVI, numa floresta, a lutar por terras comunitárias; depois, numa floresta a ser monitorizada e o confronto entre noções de público e privado, com a figura do javali como agente do caos.
A artista visual francesa Elsa Brès regressa ao IndieLisboa com a sua primeira longa-metragem, que pode ser interpretada como um manifesto que continua as lutas poéticas de Monique Wittig e Donna Haraway e apela à desobediência. O filme convida-nos numa jornada tátil através da paisagem e da história da região onde vive a artista, numa estrutura aberta onde o documentário e a ficção se misturam, e o significado é transmitido através de gestos em vez de palavras. Brès sobrepõe a revolta das mulheres camponesas contra o cercamento das terras comuns no século XVI com a intrusão moderna de javalis nas terras privatizadas e monitorizadas de Cévennes. A noite, o silêncio e a floresta emergem como espaços marginais de resiliência, onde o selvagem e o doméstico forjam uma aliança improvável contra o domínio do capital e dos homens, propondo a coabitação como uma nova forma de viver.
Anastasia Lukovnikova